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i)

Tudo o que guardei em bolsos de casacos e de calças enquanto notas a dar vida... desapareceu. E aquilo que fui levava uma lanterna a iluminar o túnel que me fez desaparecer também. O que eu queria mesmo era devolver-me àquele ritmo alucinante que me fazia esquecer de mim mas que me levava a casa - seja lá o que isso for. Não vale a pena tentar iludir o rumo dos dedos. Todos conhecem esta viagem, mesmo que seja um percurso distinto a cada nova vez. Depois do êxtase da subida há sempre uma ressaca que nos convida a uma paz urgente.
Esqueço-me de mim para não entrar em colisão com o reflexo deste espelho rachado. E às vezes, gostaria que fosse de uma forma brutalmente amnésica para que nem eu nem tu nos tivéssemos de lembrar que existimos.

ii)

Devíamos agarrar em nós e cortar bruscamente com o que nos prende. Deixar de lado a educação, o conveniente e partir para um lugar ainda por descobrir, por habitar e por destruir também. Imagina assistires a um concerto e um dos músicos desistir a meio da actuação e deixar-te em pleno êxtase. Facilmente vaguearias
de um estado de felicidade extrema para uma atitude zangada e de revolução. E se o que fez com que o músico desistisse naquele momento fosse mesmo isso, uma revolução? Uma das que não se vêem, mas que se sentem em acelerado e compassado crescimento. Eu sei que falo muito em música e sei que é como se tivesse estado cega este tempo todo e de repente a tivesse descoberto, como se tivesse feito o seu parto na minha extensa lista de itens a explorar. Mas é uma paixão que sempre esteve por aqui a pairar. Talvez como sombra e em quantidades regradas e em géneros arrumados. Digo-te que devíamos esquecer grande parte do que somos e fazer o exercício do espelho numa escala muito maior do que esta cidade, este país.
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:iconmarystone:

Author's Comments

Título: Viagem

Maria Rocha, 2008

Comments


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:iconfree-ride:
O que é o exercício do espelho?
:iconpunhal:
áspera.

--
ver de perto e permanecer
é retroceder e dever ao tempo.
:iconmarystone:
É confrontarmo-nos connosco sem falhas no espelho para que nos vejamos tal como somos, especialmente o que menos gostamos e aumentar esses defeitos, esses erros e, no fim, sermos capazes de gostar do que somos ainda assim.

--
m.
:iconmarystone:
Livre, acima de tudo.

--
m.
:iconglassghost:
Não sei se já o disse, mas às vezes os teus textos fazem-me lembrar coisas minhas, mas bem escritas.
Sabe bem ver algo próximo com o que quis exprimir alguma vez, assim tão bem escrito.

--
:invisible:
:iconcontos:
sooooolta!



espontânea! (:
:iconmarystone:
Agradeço o favorito, mas sobretudo o que escreveste. É, para mim, mais que um elogio.

--
m.
:iconmarystone:
: )

(obrigada*)

--
m.
:iconankaur:
vejo-te partir espelhos, consciente de que o fazes, doseando cada gesto, cada laivo de raiva macia.


e depois sentares-te no canto, no quase escuro, calma.





é assim que te vejo, aqui.

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April 21, 2008
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